Sessão comemorativa, «Os portugueses começaram a globalização há seiscentos anos», no Palácio Marquês de Pombal

«Há de facto uma originalidade portuguesa», foi assim que Jorge Nascimento Rodrigues encerrou o ciclo de comunicações no Salão Nobre do Palácio Marquês de Pombal. Comemorou-se, assim, em 21 de Agosto de 2015, a efeméride dos seis séculos da Tomada de Ceuta como início do processo que possibilitou a grande aventura dos Descobrimentos Portugueses, importante ruptura do paradigma histórico que abriu as portas à globalização.

02

Em pleno mês de Agosto, o belo espaço do Palácio Marquês de Pombal acolheu cerca de uma centena de assistentes neste evento organizada pela Nova Acrópole, o Instituto Internacional Hermes e o Município de Oeiras. O conhecido realizador de rádio Pedro Tojal abriu a sessão passando a palavra ao Vereador do Município de Oeiras, Ângelo Pereira, que deu as boas-vindas em nome do Município de Oeiras e felicitou a Nova Acrópole não só por esta iniciativa como também pelo trabalho que tem desenvolvido nos concelhos de Oeiras e Cascais.

03

A poesia de Walt Whitman, «O Caminho da Índia», declamada por Severina Gonçalves, coordenado do Programa Transforma (TE) de voluntariado jovem da Nova Acrópole, deu o mote para a primeira comunicação, «A descoberta do outro na arte portuguesa». Fernando António Baptista Pereira, referência na historia de arte em Portugal e presidente do conselho científico da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, levou os presentes por uma fascinante viagem pela arte portuguesa fundamentalmente dos séculos XVI e XVII onde o «português descobre o outro» e o «outro descobre o português», focando diferentes visão daquele tempo prodigioso como a de Luís de Camões e a de Fernão Mendes Pinto, por isso, a presença de ambos, no projecto museológico de sua responsabilidade para o Museu do Oriente. Os vários continentes apareceram expressos na arte.

04

O «Ocidente» de Fernando Pessoa abriu espaço para a segunda comunicação, «Identidade e globalização. Unidade e diversidade», que esteve a cargo de Paulo Alexandre Loução, director da Nova Acrópole de Oeiras-Cascais e coordenador do programa de comemorações «Seis séculos de aventura e inovação». Começou por referir que «no despertar do Renascimento, na atracção por explorar novos domínios do conhecimento, o conhecimento geográfico do mundo era muito limitado, iniciou-se a primeira globalização que foi dando a conhecer à Humanidade a sua diversidade cultural e os cinco continentes, mas hoje essa diversidade cultural está em perigo, talvez confundindo-se essência (unidade do ser humano) com homogeneização. Hoje ser inovador é manter vivas as raízes». Tendo consciência da unidade essencial do ser humano, frisou a necessiade de manter vivas as raízes, a memória, para que esta possa gerar uma consciência mais ampla, alimentar a imaginação, e gerar novos frutos no palco da história. Como fórmula de estudar a identidade de um povo, propôs que se perscrutasse a os eixos em que a sua cultura contribuiu para a evolução da humanidade. No caso do último ciclo de seiscentos anos, propôs como eixos de estudo, a «inovação e pioneirismo científico» e «a descoberta e convivialidade com o outro», e foi dando alguns exemplos como Pêro da Covilhã, Pedro Teixeira, o descobridor da Amazónia, Pedro Nunes, Manuel Góis do Colégio de Coimbra, o padre Himalaya, e finalizou com uma frase de Almada Negreiros, à maneira de um koan zen, «Cada Idade tem a criação do seu novo na interpretação que faz da Origem: A Novidade. O sinónimo de Novidade é Origem.»

«Deus quer, o homem sonha, a obra nasce» assim começa o poema Infante, que abriu a terceira comunicação da noite, «Ceuta 1415 – do universalismo à globalização», pelo economista e investigador Amadeu Basto de Lima. Uma palestra que apelou ao sentido profundo da história de Portugal, referindo o papel de Bernardo de Claraval no período da fundação e levando os presentes por uma reflexão histórica bastante meditada sobre a opção estratégica de Ceuta e o seu impacto posterior. Afirmou, «Quando Portugal prepara a sua armada para a conquista de Ceuta fecha-se a idade iniciada com a civilização romana do Mare Nostrum e abre-se ao mundo a Idade Moderna, do universalismo cristão e do capitalismo que conduziu à globalização, que em vagas sucessivas, nos desafiam, agora, a procurar respostas para a condição humana e o sentido espiritual da vida: Luís de Camões dá-nos o mote.» Esse mote encontra-se no canto VII d’Os Lusíadas, «Vimos buscar do Indo a grão corrente, / Por onde a Lei divina se acrecente», trata-se, segundo o palestrante, de um ir às origens (Oriente) e unir a nascente e a foz (Ocidente). Finalizou por sustentar que «a Expansão transformou-se num projecto mobilizador de todos os portugueses. Unidade de propósitos em torno da Coroa, de que os Painéis de Nuno Gonçalves são um testemunho sublime» e deixar também uma pergunta no ar, «O Universo é Uno: a “teoria de tudo” da Física já lá chegou. Será o Homem capaz de perceber os sinais da espiritualidade que indicam esse caminho solidário? Agora como sempre são esses desafios que dão sentido à vida.»

«Seu formidável vulto solitário / Enche de estar presente o mar e o céu / E parece temer o mundo vário / Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.», “D. João II” da Mensagem foi o átrio da última comunicação da noite, «Portugal, o inventor da globalização» pelo investigador e colaborador do semanário «Expresso», Jorge Nascimento Rodrigues, autor de obras de referência no tema como «Portugal – o pioneiro da globalização» e «As lições dos Descobrimentos», publicados com a chancela do Centro Atlântico. Deu a conhecer a génese da investigação que desenvolveu em parceria com o físico Tessaleno Devezas – que tem aprofundado os ciclos da onda de Kondratiev (60 anos) na história económica -, da qual resultaram várias obras publicadas e a «Matriz das Descobertas» que integra os dez pontos diferenciadores da época, entre os quais, «intento estratégico», «vocação universalista», «comprometimento científico», «saber jogar fora caixa» (Ceuta foi disso o primeiro exemplo faze às diferentes políticas europeias), «improviso organizacional», ou seja, o paradigmático «desenrascanço» português. Tudo isso tornou claro para estes dois investigadores a «originalidade portuguesa», que criou uma rede mundial absolutamente inovadora. «Este é o grande activo que temos como país», afirmou, referindo também que Lisboa «é a única capital do mundo que tem um ativo que mais nenhuma capital tem, é a capital pioneira da globalização». Referiu também a importância de ultrapassar tanto uma visão integrista e fantasiosa da história de Portugal, como, num outro extremo, negar-se a sua singularidade e riqueza.

05

A arte que iniciou o evento, volta a encerrá-lo com chave de ouro, assim foi referido pelo moderador Pedro Tojal. O pintor Luís Vieira-Baptista realizou uma visita guiada pelos quadros que expôs para o evento e ofereceu aos oradores um seu trabalho em torno do rinoceronte de Dürer. Silvestre Fonseca brindou os presentes com um momento musical sublime na guitarra clássica com uma «viagem no tempo» através da música, desde o Renascimento até ao século XX português.

Paulo Alexandre Loução encerrou a sessão convidando os presentes a participarem na próxima actividade do Programa «Seis séculos de aventura e inovação», a primeira «Tertúlia dos 6 Séculos» subordinada ao tema «Portugal no alvorecer da ciência moderna», que terá lugar no Salão Nobre da Fundição de Oeiras, quinta-feira, dia 17 de Setembro, às 19h30.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *