Seminário «Arkhé, os filósofos pré-socráticos e a ciência actual», no Espaço Arkhé

Na manhã do passado sábado, dia 4 de Junho, no Espaço Cultural Arkhé, o professor José Carlos Fernandez, director Nacional da Nova-Acrópole, ofereceu, a uma plateia cheia, um seminário subordinado ao tema – Arkhé, os filósofos pré-socráticos e a ciência actual.
Ao contrário duma ideia muito comum, o professor começou por explicar como a filosofia não começou na Grécia. Existem de facto registos anteriores de centros de conhecimento, como na India, com as suas Seis Darshanas, ou no Antigo Egipto, que tinha as suas “Casas da Vida” (Per Ankh), civilização onde muitos pré-socráticos, cuja linhagem começa em Tales de Mileto para acabar em Demócrito aquando do nascimento de Sócrates, terão recebido formação. Teria sido portanto destas escolas de sabedoria que teriam irradiado as bases para aquilo que veriam a ser os desenvolvimentos políticos, artísticos, religiosos e científicos da nossa civilização.

13432322_623798437777519_1840280552947435222_nEsta foi então a premissa do seminário: é possível descortinar as raízes de muitas descobertas da ciência actual nos filósofos pré-socráticos, que terão pertencido todos eles a Escolas de Mistérios, sendo que na Antiga Grécia o caso mais paradigmático eram os Mistérios de Elêusis. Todos estes filósofos se ocuparam da Arkhé, que poderíamos descrever como a causa de toda a existência; o mais antigo, o inalterado, que se mantém desde o início e que continua até ao final; o alfa e o ômega, o que está subjacente a qualquer manifestação, aquilo que continua sempre puro. Haveria então um conhecimento muito concreto acerca da Arkhé e das suas manifestações que era transmitido nestas escolas filosóficas – juramentados, os membros destas escolas não podiam divulgar expressamente os ensinamentos que haviam recebido, sendo que expressões metafóricas podem ser encontradas na arte clássica ou nos aforismos destes filósofos.
Uma vez enquadrado o tema, o professor José Carlos Fernandez passou a citar alguns exemplos de como alguns fragmentos ou citações de pré-socráticos são passíveis de serem interpretados como antecipando já, à distância de mais de 2.000 anos, algumas descobertas que a ciência moderna apenas começa a conquistar. Em Séneca, por exemplo, no seu livro “Cuestiones Naturales”, encontramos a referência a Tales de Mileto, segundo o qual a orbe das terras seria sustentada pela água, sobre a qual desliza como uma barca, e que quando a terra treme, é devido ao movimento da água – esta metáfora não está longe daquilo que hoje a ciência indica acerca das placas tectónicas, que deslizam num manto líquido de magma, às quais estão ligadas os fenómenos sísmicos.

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Um outro exemplo seria a afirmação de Anaximandro, de “ que os contrários separam-se do Uno”, que remete para a ideia da criação do Universo aquando do Big Bang e da divisão inicial entre matéria e antimatéria. Também de Anaximandro se falou acerca da sua ideia de Movimento Eterno, onde tudo estaria em contínuo movimento. Sendo que hoje não nos é tão difícil aceitar quando até as partículas subatómicas quarks estão em constante agitação, não deixa de ser surpreendente como tal ideia era já concebida na Grécia Antiga.
De Xenófanes, por sua vez, teríamos a afirmação de que “o Sol é feito de nuvens em ignição”, o que remete para uma extraordinária semelhança com as imagens solares fornecidas pelo satélite Soho. O Raio governa todas as coisas – dizia Heraclito – e além de remeter para a imagem de Zeus, será que poderia conter em si um qualquer conhecimento? Sim, aquele descoberto por Maxwell nos finais do século XIX, o electromagnetismo, que seria a força rei do universo e não a gravidade, como tantos fenómenos de desgravitação parecem indiciar.
Entre tantos outros exemplos, o professor citaria também os casos de Parménides de Eleia ou de Empédocles de Agrigento. O primeiro afirmava, citado pelo médico Galeno: à direita, os rapazes; à esquerda, as raparigas; e não poderá esta afirmação ser remetida para os conhecimentos acerca dos hemisférios cerebrais ou os estudos sobre biomagnetismo, ou até à própria Tabela Periódica dos Elementos onde à direita estão os electropositivos e à esquerda os electronegativos? O mar é o suor da Terra, eis uma afirmação de Empédocles que Aristóteles dizia ser incompreensível, mas que contudo pode remeter para umas das teorias actuais acerca da origem dos mares, quando concebida como sendo o resultado da água contida nos meteoritos.
Por fim, o caso de Demócrito, com a sua Teoria Atomista, para a qual tudo é passível de ser reduzido a unidades simples e idênticas. Sem esta ideia inicial, que hoje é absolutamente aceite, a ciência moderna não poderia ter começado a trabalhar neste sentido desde as primeiras experiências de Dalton, em 1803. O sigilo pedido nas Escolas de Filosofia talvez possa ser melhor entendido com o caso de Demócrito, conhecido por ter falado dalguns destes temas na ágora – sem os seus conhecimentos, algo como a bomba atómica não teria sido talvez possível, o que nos deixa imaginar o poder contido nalguns destes ensinamentos.
Assim, como conclusão, o professor José Carlos Fernandez propôs uma nova visão acerca dos filósofos pré-socráticos, que talvez não tenham sido os primeiros a filosofar, mas sim que tenham sido sábios de cujos conhecimentos nos restam somente fragmentos e alusões, que quando meditados pelos grandes génios da nossa cultura, haveriam de servir de base em muitas áreas da civilização ocidental.

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