A arte de viver em crise

Se encararmos a vida como um processo de criação, como uma obra de arte, na qual nós somos os pequenos artistas em aprendizagem, e ao mesmo tempo a própria criação a ser talhada, percebemos que podemos dar uma determinada cor e desenhar a paisagem da nossa vida pessoal. Mas, há momentos em que somos arrastados para crises pessoais, familiares, nacionais ou a nível mundial.

Quando as crises surgem deveríamos refletir no porquê das coisas não estarem a funcionar como antes. E, se virmos bem, existe um denominador comum em todas as crises: os paradigmas em que assentam as nossas vidas, a sociedade em que vivemos, deixam de servir os Homens. Esse modus operandi já foi ultrapassado.

A palavra crise provém do latim «crisis» que, por sua vez, é uma adaptação da palavra grega «Krisis» que significa a capacidade de distinguir, ato de escolher, de separar as coisas, processo de decisão, algo que se quebrou, solução. A crise implica, por isso, um processo de mudança, de transformação.

Os paradigmas que até então sustentaram a nossa civilização, levaram à dificuldade de encarar a crise. Um desses paradigmas é o mito de progresso contínuo, da crença no crescimento linear e progressivo, que teve consequências mais graves do que possamos imaginar. Fez-nos acreditar na ideia de um progresso interminável. Mas acontece que, todo o Universo funciona de forma cíclica, tem altos e baixos. E este processo cíclico também ocorre nas nossas vidas pessoais.

A promessa de uma felicidade permanente, composta de um trabalho seguro, de uma casa bem apetrechada, de férias paradisíacas, de uma boa reforma, de um bem-estar constante e duradouro, levou-nos a um adormecimento, a uma letargia. E, quando a realidade nos devolve uma paisagem totalmente diferente, com exigências, carências, dificuldades, caímos facilmente na tristeza, na depressão, sentimo-nos incapazes de a encarar e de encontrar soluções.

Esta máquina que fomos construindo levou-nos a crer que através desse crescimento contínuo, a humanidade iria encontrar um Paraíso na Terra, que o crescimento económico seria sempre bom, positivo, de melhoria das nossas vidas. Mas, não é assim.

Os resultados desta falsa crença começaram a surgir. Desde logo, pelo predomínio da máquina sobre o homem, a questão económica passou a ser mais importante que a humana. Nunca na história da humanidade houve tantos pobres (307 milhões), o que se deve não só ao aumento densidade populacional, mas ao número de desempregados (202 milhões), que até ao final de 2012 se prevê aumentar, e mais impressionante é o número de escravos existentes (27 milhões) em todo o mundo.

Não vivemos, assim num paraíso. A linha linear e crescente da economia, é afinal uma linha curva que transita entre altos e baixos, sendo que, os países que estão na linha curva em baixo, estão mais aptos à mudança. Na Grécia estão a criar um sistema completamente à parte do sistema estatal. Cada vez mais vão surgindo formas alternativas de economia, vivências. O que assistimos hoje é fruto de um processo cíclico da história, pelo que, a crise não tem só a ver com a falha do sistema.

Nos hexagramas chineses a palavra crise tem o significado de perigo, oportunidade. Mas, o ocidente fixou-se na imagem de perigo, esqueceu-se do campo de oportunidades que se apresentam nos momentos de crise. Podemos inovar e melhorar muita coisa, quer a nível individual, quer a nível coletivo. Temos que tentar desdramatizar o lado negativo da crise. A crise é um movimento que impulsiona à mudança, que se opõe à força de resistência, de querer permanecer no passado. Habituámo-nos a décadas de certeza, convencemo-nos de que tudo era certo, confortável, resistimos à mudança, fomo-nos acomodando (a chamada zona de conforto), e ficámos moles.

Se olharmos os estoicos, entre os quais Marco Aurélio que defendia que o homem deveria buscar a adversidade, em vez de procurar o conforto que gera um estado de dormência, que aos poucos nos vai debilitando.

Quando deixamos de exercitar o nosso corpo físico, os nossos músculos atrofiam, perdem elasticidade e tonicidade, assim são os nossos músculos mentais, as nossas ideias. O conforto impede-nos de sermos proactivos em relação à vida. E, neste aspeto, devemos aceitar as crises como oportunidades para nos fortalecemos. Note-se que, relacionada com a ideia de crise está o conceito e imagem da crisálida, que significa crise alada, crise que ganha asas. Todos já observamos o esforço que a borboleta faz para sair do seu casulo, esforço que contribui para que se torne forte e consiga voar. Se fôssemos ajuda-la a sair, ela não teria formado os seus músculos, desenvolvido a sua força e domínio interior para empreender o seu voo. Ora, o ser humano também precisa de dificuldades, obstáculos e crises para se fortalecer. A mentalidade que desenvolvemos ao longo dos anos ligada ao conforto e felicidade eterna sem esforço, fez-nos frágeis perante a adversidades e os problemas. A nossa fortaleza é muito diminuta, em resultado do próprio sistema económico que intencionalmente nos passou várias mensagens que nos tornaram fracos e facilmente manipulados. Por isso, é importante encararmos a crise como parte da vida e da condição humana. Se sentirmos que não há crise, é sinal que algo não está bem, que não estamos a viver, a procurar novos desafios, estamos a estagnar.

Quando tudo está bem, pensamos pouco, quando está mal, pensamos muito, questionamo-nos sobre a vida, sobre o que está mal e precisa de ser melhorado, e no que se pode fazer para isso. Questionamo-nos se precisamos de tanta coisa que formos acumulando ao longo da vida. Sócrates quando foi a uma feira, ficou surpreendido com a quantidade de coisas que não precisava, e que estavam à venda. Então!!… As crises desenvolvem em nós a capacidade de reflexão e, cada vez mais há mais pessoas a interessarem-se pela filosofia, o que permite afastar-nos da tendência para o consumo desenfreado.

Este é um momento histórico, porque nos proporciona o desenvolvimento do individuo, através da criatividade, conduz-nos a sermos de alguma forma agentes transformadores do mundo, é um momento privilegiado para a humanidade.

Os momentos de crise ajudam-nos, por outro lado, a desenvolver a coragem (agir com o coração), ou seja, a colocar o nosso ser, a nossa alma, na ação em que nos lançamos, ação essa que passa a ser produto da nossa vontade. Apesar dos medos, temos que ter coragem para agir, o medo faz parte da natureza humana. Se temos medo é porque vamos de encontro a novas possibilidades e descobertas, não antes desbravadas ou por nós conhecidas.

E, será que temos que passar pelas dificuldades para aprender? Não necessariamente, mas se não for assim normalmente não prestamos atenção ao essencial da vida. Estamos de tal modo condicionados pelos nossos hábitos, que não aprendemos. A crise ajuda-nos a tirar os hábitos é outra vantagem. Outra coisa que a crise nos vai mostrar é que não podemos esperar que a vida nos ofereça só facilidades, depois de ultrapassarmos um obstáculo, vem logo outro a seguir, isto para não nos acomodemos à vida boa.

A crise no campo do trabalho, vai também conduzir as pessoas a irem ao encontro das suas vocações. As vocações surgem da experiência da vida.

O que estamos a assistir é a uma crise do sistema, que serve para restaurar a harmonia, uma nova ordem, entretanto quebrada.

Há palavras, como sejam crise, défice, que ouvimos repetidamente, sem nos darmos conta, mas que nos vão formatando a mente, minando as nossas defesas, o que nos compele a uma repetição mecânica. Os trabalhadores hoje são escravos psicológicos, completamente domados pelo seu patrão, Estado ou empresa privada. A vida dos trabalhadores está sujeita àquilo que o seu empregador quiser.Temos que trabalhar para nós próprios, e fazer algo que seja fonte de realização pessoal. Embora, o segredo da nossa felicidade não esteja em fazer o que gostamos, mas em gostar do que fazemos. O segredo da longevidade de Manuel de Oliveira sempre foi de fazer o que gosta e com gosto.

A crise ajuda-nos a perceber que a felicidade na vida não é sinónimo de dinheiro. Se sofremos hoje, é porque sobrevalorizamos o dinheiro.

A crise também nos trás uma maior capacidade de nos darmos aos outros, de nos aproximamos, movimentos de voluntariado. O egocentrismo, egoísmo trouxe-nos muitos problemas psicológicos, qualquer sistema que se fecha colapsa, se impedirmos a água de circular, temos água estagnada, tudo sofre um processo de protefacção, de colapso.

Quando nos fechamos no nosso egoísmo, criamos taras mentais, e comportamentos dissonantes com a nossa natureza humana. A recomposição surge quando nos começamos a dar aos outros, o que permite uma circulação da riqueza externa, e interna, e vai produzir uma limpeza interna. Quanto mais damos, mais recebemos e quanto mais amamos, mais somos amados. Tudo flui de mão em mão. E não digamos que não conseguimos, que a nossa felicidade depende do mundo exterior, de certas pessoas, temos que empreender um esforço pessoal para sermos mais e melhores.

Enfim, devemos olhar a crise como uma porta aberta para o futuro, para um campo aberto de novas oportunidades, um convite para largarmos o passado, aceitarmos o que se perdeu, retermos a experiência do passado, e seguirmos em frente, com coragem, em direção a novos rumos e voos.

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